Calçados
Botina escorrega: o que fazer antes de trocar
Escorregar quase nunca começa no calçado. Começa no piso, no produto de limpeza ou na gordura acumulada na própria sola — e dá para descobrir hoje, sem comprar nada.
Revisado por Helano, técnico de segurança do trabalho · setembro de 2026
Em uma frase
Quando um calçado que segurava passa a escorregar, alguma coisa mudou — e na maioria das vezes não foi o calçado. Antes de trocar, vale descobrir o quê: a investigação leva minutos, e a troca sem ela pode repetir o problema com um par novo.
Aderência é uma relação entre duas superfícies, com o que estiver entre elas. Isso significa três suspeitos, não um: o calçado, o piso e o que está no meio — água, gordura, poeira ou resíduo de produto de limpeza. Trocar o calçado resolve um terço dos casos possíveis, e é o mais caro dos três.
A pergunta que abre a investigação: o que mudou?
Se antes segurava e agora não segura, houve mudança em algum ponto. A resposta costuma estar nesta lista.
| O que investigar | Sinal de que é isso | O que fazer |
|---|---|---|
| Sola suja ou engordurada | Escorrega em qualquer piso, inclusive fora do trabalho | Limpar a sola a fundo e testar de novo |
| Produto de limpeza do piso | Começou depois que a empresa trocou de produto ou de fornecedor | Conferir diluição e enxágue com a equipe de limpeza |
| Diluição errada do mesmo produto | Piso "brilhoso" ou pegajoso depois de seco | Rever a dosagem: excesso deixa película |
| Piso novo ou reformado | Coincide com obra, troca de revestimento ou impermeabilização | O calçado pode não ser o certo para o piso novo |
| Contaminante novo no processo | Passou a haver óleo, farinha, pó ou água onde não havia | Rever o modelo para o contaminante atual |
| Desgaste do solado | O relevo está liso nas áreas de maior apoio | Aí sim é troca de calçado |
| Modelo errado desde o início | Escorrega desde o primeiro dia, não "passou a escorregar" | Rever a classe contra o piso e o contaminante |
Limpe a sola antes de julgá-la
É o passo mais simples e o mais pulado. Gordura, resíduo de produto e poeira compactada preenchem o relevo do solado e anulam exatamente a parte que gera aderência — o desenho continua lá, mas está entupido. Em cozinha e em área de produção isso acontece em semanas.
Lave a sola com escova e detergente comum, enxágue e deixe secar. Se a aderência volta, o problema era esse, e a solução é rotina de limpeza da sola — não par novo.
O produto de limpeza do piso é suspeito frequente
Produto em excesso, ou aplicado sem enxágue, deixa uma película no piso que reduz a aderência de qualquer solado. É a causa que mais passa despercebida porque ninguém liga uma coisa à outra: a troca de fornecedor de saneante aconteceu no mês passado, e a queixa de escorregamento chegou esta semana.
Vale conversar com quem limpa antes de comprar calçado. Diluição correta e enxágue costumam devolver o piso ao que era, e saem de graça.
O teste que dá para fazer hoje
- Vire o calçado e compare o relevo da área de maior apoio com o de uma lateral que quase não toca o chão. Diferença grande é desgaste, e desgaste é troca.
- Passe a mão no piso já seco depois da limpeza. Se ficar sensação de película ou de escorregadio, o suspeito é o produto, não o calçado.
- Teste o mesmo calçado num piso diferente. Se lá segura, o problema está no piso ou no que há sobre ele.
- Pergunte se a queixa é de uma pessoa ou da equipe. Uma pessoa aponta para o par dela; a equipe inteira aponta para o ambiente.
O que não resolve, e o que piora
Lixar a sola não melhora a aderência. O que segura é o desenho do relevo e o material da superfície de contato; lixar remove os dois e deixa uma superfície mais lisa do que a original. É a dica ruim mais repetida sobre o assunto.
Spray, fita e produtos aplicados no solado também não. Nenhum deles é ensaiado com o calçado, nenhum consta no Certificado de Aprovação e todos alteram a superfície que foi aprovada. Se o solado não serve mais, o caminho é o par novo — improviso em EPI é risco somado ao risco.
Quando é o calçado mesmo
Duas situações. A primeira é desgaste, que a comparação do relevo mostra. A segunda é modelo incompatível desde o começo — nesse caso o calçado nunca segurou, e a queixa não é "passou a escorregar", é "sempre escorregou". Aí a pergunta é qual ensaio o modelo atende contra o piso e o contaminante reais, e isso está explicado em o que significa antiderrapante.
Se for troca por desgaste, os demais sinais que pedem substituição estão em quando trocar o calçado de segurança — vale conferir o par inteiro de uma vez, e não só a sola.
Fontes
- Requisitos para calçados de segurança e ocupacionais — Target Normas
- NR-6 — Equipamento de Proteção Individual (texto atualizado)
Este texto tem finalidade informativa e orienta a escolha de equipamentos de proteção. Não substitui a avaliação de riscos do ambiente de trabalho, que deve ser feita por profissional habilitado quando necessária.
Perguntas frequentes
Lixar a sola melhora a aderência?
Não, piora. O que segura é o desenho do relevo e a superfície de contato do solado; lixar remove os dois e deixa o calçado mais liso do que era. É a dica ruim mais repetida sobre o assunto.
Calçado novo pode escorregar?
Pode, e nesse caso a queixa não é "passou a escorregar" e sim "sempre escorregou". Aponta para modelo incompatível com o piso ou com o contaminante do ambiente, e não para desgaste. A verificação é qual ensaio o modelo atende.
Escorregar é sempre problema do calçado?
Não. Aderência é uma relação entre o solado, o piso e o que estiver entre os dois. Sola engordurada, película de produto de limpeza mal enxaguado e contaminante novo no processo derrubam a aderência de qualquer calçado aprovado.