Proteção
EPI para cerâmica vermelha e olaria: o que muda
Cerâmica de telha e tijolo junta poeira mineral, calor de forno, ruído e peso. E a compra de EPI costuma resolver só o risco que se vê.
Revisado por Helano, técnico de segurança do trabalho · Atualizado em
Em uma frase
Uma cerâmica de telha e tijolo junta quatro riscos que raramente aparecem juntos: poeira mineral, calor de forno, ruído de máquina e carga manual. A compra de EPI costuma resolver o que se vê, que é o calor. O risco mais sério é o que não se vê: a poeira.
Teresina é o maior polo produtor de cerâmica vermelha do Piauí, principalmente de telhas. Não confundir com o polo artesanal do Poti Velho, que é outra atividade, de ateliê, com outra escala. Este texto trata da indústria: do barreiro de onde sai a argila até a expedição.
A poeira de argila é o risco que não aparece
A argila contém sílica. Quando ela seca e é triturada, varrida ou manuseada, parte vira poeira fina o bastante para chegar ao fundo do pulmão. A exposição repetida por anos pode causar silicose, uma doença pulmonar sem cura. Não dói no primeiro dia, e é por isso que é a parte da lista que mais falta.
Os pontos de mais poeira costumam ser a preparação da massa, o destorroamento, a varrição a seco, o pátio de secagem e a desenforna. Antes do respirador vem o que tira a poeira do ar: umidificar, trocar a varrição a seco por limpeza úmida, ventilar. Depois disso, o respirador para partículas, escolhido pela avaliação de riscos da empresa. A sequência da escolha está em como escolher o filtro do respirador.
Um detalhe que decide se o respirador funciona: ele precisa vedar no rosto. Barba e máscara de pano por baixo abrem caminho para a poeira, e o equipamento certo passa a proteger pela metade.
O forno: calor de ambiente e calor de contato
Na queima, na enforna e na desenforna, o trabalhador lida com dois calores diferentes. O do ambiente, que se controla com organização: pausa, rodízio, hidratação, e que EPI nenhum resolve. E o calor de contato, das peças que saem quentes do forno, que pede luva própria. Proteção contra calor de contato é uma característica que consta no Certificado de Aprovação, e não uma luva grossa qualquer.
É o posto em que a luva mais se confunde. A luva para peça quente não é a mesma do manuseio de telha fria, e a luva do manuseio não aguenta o forno. Separar os dois postos na lista evita a luva que serve mais ou menos para os dois.
Ruído: misturador, maromba e destorroador
A preparação e a conformação da massa usam máquinas que fazem ruído o turno inteiro. A atenuação necessária vem da medição feita pela empresa, e a escolha entre os tipos sai da rotina de cada posto. O que muda de um para outro está em protetor auditivo: plug ou concha.
Peso, abrasão e o pé
Telha e tijolo são carregados, empilhados e paletizados à mão o dia inteiro. A peça é áspera e desgasta a pele da mão, e de vez em quando cai. Por isso aqui a luva é de manuseio, resistente à abrasão, e o calçado é de segurança, com biqueira: queda de peça sobre o pé é risco real no pátio e na expedição. O que muda entre os calçados de segurança está na página da categoria.
Quem trabalha no barreiro e no pátio passa boa parte do dia no sol. Roupa de manga longa e proteção para a cabeça entram na conversa, e a avaliação de riscos define quais desses itens a empresa trata como EPI.
O que costuma faltar no pedido
- Respirador para quem varre e desenforna. É o posto com mais poeira e o que menos aparece na lista.
- Luva térmica separada da luva de manuseio. Forno e pátio pedem coisas diferentes.
- Reposição de luva de manuseio. A abrasão da telha gasta a luva em dias, e quando ela fura, a mão passa a trabalhar sem.
- Protetor auditivo para quem só passa pela área das máquinas, que respira a mesma poeira e ouve o mesmo ruído.
- Calçado com biqueira na expedição, e não só no forno.
O que verificar antes de comprar
- Quais etapas existem: barreiro, preparação, conformação, secagem, forno, expedição.
- Onde a limpeza é feita a seco, e se dá para trocar por limpeza úmida.
- A medição de ruído e, se houver, a avaliação de poeira da empresa.
- Quem opera o forno e quem só passa por ele.
- Onde há empilhamento e carga manual, e onde há máquina.
- O CA de cada item, lembrando que proteção respiratória, contra calor e auditiva são aprovações separadas.
Cerâmica costuma ter muita gente no pátio e na expedição e pouca gente no forno. Vale montar a lista por posto, e não por pessoa: é o que mantém a compra certa quando a equipe do pátio muda na safra de obra.
Fontes
- Cerâmica vermelha em Teresina — Revista Cerâmica Industrial, v. 14, n. 4 (2009)
- Revitalização do Polo Cerâmico do Poti Velho — Governo do Piauí
- Riscos profissionais no setor cerâmico: estudo de caso — Contecc 2018, Confea
- NR-6 — Equipamento de Proteção Individual (texto oficial, PDF)
Este texto tem finalidade informativa e orienta a escolha de equipamentos de proteção. Não substitui a avaliação de riscos do ambiente de trabalho, que deve ser feita por profissional habilitado quando necessária.
Perguntas frequentes
Máscara de pano protege da poeira de argila?
Não. A poeira que preocupa é a fina, que chega ao fundo do pulmão, e o tecido não a retém. O que protege é respirador para partículas, com Certificado de Aprovação e bem vedado no rosto, depois das medidas que tiram a poeira do ar.
Por que a poeira da cerâmica é perigosa se é só barro?
Porque a argila contém sílica, e a parte mais fina da poeira, respirada por anos, pode causar silicose, uma doença pulmonar sem cura. O risco não aparece no curto prazo, e é por isso que costuma ficar fora da lista de compra.
A luva do forno serve para carregar telha?
Costuma servir mal. A luva para peça quente é feita para calor de contato, e a do manuseio é feita para abrasão. Uma usada no lugar da outra ou esquenta a mão ou gasta em poucos dias. Vale separar os dois postos na lista.